Os salvadores da alfaiataria

As coincidências entre Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama extrapolam – e muito – o fato de os dois terem derrubado preconceitos diversos até conseguirem chegar à presidência de seus países. Eles são apontados, por exemplo, até como responsáveis pela manutenção de uma antiga profissão, que muitos viam como fadada à extinção, ao menos em Salvador: a alfaiataria.
O ex-presidente brasileiro fez respirar a plenos pulmões os negócios dos (poucos) alfaiates soteropolitanos no fim de 2002, quando se soube que a camisa escolhida para a posse vinha da casa pilotada pelo italiano Ernesto di Tomaso – que manteve o negócio, apesar de ter voltado à Itália.
A fama foi tamanha que acabou atraindo outros clientes ilustres, como o presidente venezuelano Hugo Chávez, às alfaiatarias da cidade, fazendo crescer os pedidos nas temporadas seguintes.
Do executivo para os executivos
Agora, é a vez de o presidente norte-americano influenciar nos negócios das alfaiatarias de Salvador. Seus ternos de dois botões e corte perfeito caíram no gosto de políticos, empresários e até de profissionais emergentes do mercado baiano, que não se importam em passar uma hora tirando medidas para ter uma peça apenas feita para eles e têm dado novo fôlego aos profissionais do setor.
Os preços da exclusividade nem chegam a assustar – um terno pode sair até por menos de R$ 1 mil. "Não é diferente das boas lojas", diz o administrador Jorge Carlos Santos, 31 anos, neoadepto da alfaiataria: "E veste bem melhor."
Medidas provisórias
Segundo o mais antigo alfaiate de Salvador em atividade, Samuel Pitanga, de 85 anos, não é apenas por causa das medidas exatas que roupas de (bons) alfaiates são melhores que as das grandes lojas.
"É na conversa que a gente tem quando tira as medidas que a roupa é feita", afirma, como se estivesse confidenciando um segredo de profissão. "É ali que a gente descobre o que incomoda o cliente, se é a barriga, se é o pescoço, e se prepara para disfarçar aquele ponto que ele não gosta."
Uma agência para líderes. E vice-líderes insatisfeitos.